terça-feira, 20 de abril de 2010

Segunda Parada...Quase para...






Pode ser a impressão de alguém que cultiva grandes expectativas. Mas quando dobrei a esquina das ruas Érico Veríssimo com João Alfredo, no domingo, dez de abril, às 15h20min (acreditava que eu estava atrasado, devido a minha “montaria” demorada), antecipava encontrar uma multidão de artistas.
Artistas esses que dizem desejar ver salas e teatros lotados. Membros de uma classe teatral de uma cidade percebida em todo o país como uma das capitais mais desenvolvidas e envolvidas culturalmente. Impossível evitar minha decepção ao deparar-me com o número inexpressivo de pessoas no ponto de partida da II Parada de Teatro da Cidade de Porto Alegre. Sim, o Largo Zumbi dos Palmares (mais conhecido como largo da finada Epatur), estava constrangedoramente vazio.
Falo da minha expectativa por ter participado das reuniões e da alegria da primeira parada. Minha conclusão lógica era que, desta vez, na segunda edição, teríamos uma maior participação dos grupos, personalidades, estudantes, diretores, atores, produtores, professores, sobreviventes e empresários do ofício teatral.
Não é minha intenção (muito pelo contrário) desmerecer a iniciativa de um grupo disposto fazer acontecer algo legal. Lá estavam muitos alunos, não mais que cinco mestres, menos da metade dos grupos que dizem atuar nesta cidade, a gente do teatro de bonecos (sempre presente, apoiando) e alguns familiares.
Apesar da decepção, uma valiosa lição aprendida nesses meus 16 anos de teatro foi providencial: a plateia sempre merece nosso maior esforço e dedicação – seja ela formada por um, dois, 50 ou 200 expectadores. Da mesma forma, a Parada e os poucos presentes contavam com a entrega de cada um. E seguimos, conduzidos pela força maravilhosa e contagiante da Banda da Saldanha.
Ao fazer esse relato sobre o evento, pergunto: Onde estavam as pessoas que se beneficiam dos fundos como as leis de incentivo à cultura? Os agraciados do Fumproarte? Dos projetos da nacionais da Funarte? Onde estavam as personalidades que alegam fazer teatro “desde as cavernas” na nossa cidade?
Por que razão se ausentaram aqueles que aparecem quando concorrem a premiações? Talvez ocupados em um desses eventos “artísticos” promovidos por políticos e regados a discursos e coquetéis... (Muitos desses, não por coincidência, os mesmos que ocupam, anos a fio, cargos políticos que decidem o destino financeiro e artístico da classe!)
Ali estavam as pessoas que, de fato, se preocupam com o contexto. Com o cenário do fazer teatral em Porto Alegre. Mas esperava mais, projetava mais. Uma vez que festejávamos a II Parada de Teatro, com o apoio voluntário da iniciativa privada (SESC), a parceria de nossa prefeitura (que fez o possível e até copinhos com água do DMAE distribuiu), surpreendeu-me a ausência de gente que ocupa a Secretaria de Cultura no Governo Estadual.
Desculpo-me antecipadamente se por ventura estiver sendo injusto e equivocado. Mas o evento não teve o impacto necessário para uma classe que quer reivindicar crescimento em nossa cena teatral.
Será que vamos nos encontrar na terceira edição? Espero que abram-se as tais portas dos castelos e cavernas. E que, ao menos por uma tarde, durante algumas horas, um domingo por ano, a máscara de burocrata seja trocada pelo semblante do artista que ainda acredita que fazer teatro é relevante e vale à pena.

Heinz Limaverde
Ator

domingo, 11 de abril de 2010

Entrevista com Jaime Mateos sobre o Teatro de Objetos





por Fernanda Stein - bailarina do MEME.




Recentemente, tive a oportunidade de participar da Oficina “Introdução ao Teatro de Objetos” com o professor e ator espanhol Jaime Santos Mateos, dentro da programação do FITO – Festival Internacional de Teatro de Objetos (realização Fiergs / SESI).

Jaime Mateos fundou a Chana Teatro em 1987 e tem participado de festivais em diversos países, como França, Espanha, Bélgica, Brasil, Portugal e Israel. Foi aluno de mestres renomados: Philippe Genty, Mary Underwood, Jango Edwards, entre outros. Dentro do FITO, apresentou dois trabalhos: “O Pequeno Vulgar” e “Entre Dilúvios”.

A Oficina foi de segunda a sexta-feira, entre os dias 22 e 26 de março de 2010. Foi uma semana intensa onde todos os participantes tiveram a chance de “colocar a mão na massa”, experimentando e aprendendo com os objetos e a arte de colocá-los em cena. Alem disto, a convivência com outros artistas, de diferentes áreas, proporcionou uma grande e animada troca, criando novas redes e amizades.

Muito gentilmente, o professor Jaime aceitou em conceder esta breve entrevista, onde fala um pouco sobre o surgimento do Teatro de Objetos, sua experiência como ator nesta área, as dificuldades e desafios deste trabalho.

Rosa Casaccia e o artista circense e professor do Centro MEME, Diego Esteves, também participaram da Oficina e contribuíram com esta entrevista:



  • Como e onde se pode dizer surgiu o Teatro de Objetos como um gênero em si?
  • Yo creo que surgió em Francia, em uma velada com Velo Théatre, Manarf théatre, théatre de La cuisine, katy deville y allí se comenzó a llamar teatro de objetos a aquel gênero em El que se actuaba com objetos pero sin transformar su naturaleza.



  • Quais as principais diferenças entre o Teatro de Bonecos e o de Objetos?

El teatro de objetos es el arte Del redescubrimiento del objeto. Lá búsqueda de otros significados del objeto. A veces el objeto también puede ser manipulado como boneco, pero el teatro de bonecos es uma representación, es algo explícito y concreto. El boneco representa um personaje. Em el teatro de objetos no necesariamente. El objeto puede representar o significar muchas cosas.



  • Quais as maiores dificuldades de trabalhar com objetos?

La dificultad estriba em recuperar el animismo por um lado, y por outro el encontrar de qué es metáfora esse objeto.



  • Como funciona o seu processo de pesquisa para a montagem de um espetáculo?

Yo elijo um tema y voy asociando a esse tema objetos e imágenes, así como posibles conflictos. Creo um campo magnético em torno al tema y después voy cruzando lo que tengo hasta que consigo la obra.



Como surgiu a idéia para encenar a peça “Entre Dilúvios” e como foi o seu processo de investigação neste caso?

Entre dilúvios fue um proceso largo y no continuado. Siempre me interesó La bíblia. Traté de buscar conflictos que yo pudiera asumir como mios y luego jugando y jugando fui descubriendo lo que me interesaba. Trabajé com objetos y textos a la vez.



  • Sobre usar o corpo em movimentos "maiores", sem uso de uma mesa/palco: até onde é interessante, e onde se pode perder o foco? Qual cuidado tomar? Digo isso pensando em associar o teatro de objetos com circo e dança. Existem referências de trabalhos com este formato? (pergunta de Diego Esteves)

Creo que el cuerpo es um objeto más. El teatro de objetos es um ritual em el que el cuerpo del actor tiene um papel protagonista. Philippe Genty usa em sus espectáculos el cuerpo como objeto y el actor como boneco.



  • Minha pergunta estaria na discussão do que seja sinédoque. O professor Ernani Terra não coloca distinção entre esta palavra e metonimia. Vejam só: http://www.ernaniterra.com.br/texto_002.php. (pergunta de Rosa Casaccia)

La sinécdoque es uma figura que está dentro de la metonima. Es tomar la parte por el todo.



  • Quais grupos você poderia citar como sendo referências dentro do Teatro de Objetos?

Los que he citado sl principio, así como Julio Molnar, Tabola Rassa, Gare Central, Chemins de Terre...



  • Que conselhos você daria a um ator ou bailarino que queira iniciar uma pesquisa com os objetos? Quais os primeiros passos em sua opinião e que cuidados deve tomar?

Descubrir de nuevo el plocer de jugar como los meninos y después entender que este gênero es um arte fundamentalmente poético em el que buscar la metáfora se convierte em um viaje incomparable.



  • Como foi a experiência de participar do FITO em Porto Alegre e quando pretende voltar à cidade?

Fue maravilloso. El publico recibió mis espectáculos com verdadero entusiasmo y los alumnos de la oficina trabajaron muy interesadamente lo cual provoco excelentes resultados.

No sé cuándo volveré a Porto Alegre, pero espero que sea pronto.



site da cia La Chana Teatro:
http://lachanateatro.wordpress.com/fotos/

sexta-feira, 19 de março de 2010

Roseli Rodrigues


Morreu na madrugada desta quinta-feira, Roseli Rodrigues, coreógrafa e diretora da Raça Cia de Dança de São Paulo. Ela tinha 54 anos e sofria de câncer linfático.

O diretor do Meme, Paulo Guimarães, trabalhou com Roseli em 1996 durante sua passagem por São Paulo. A seguir, algumas palavras suas sobre a morte de uma das precursoras do jazz no Brasil:


A morte da Roseli significa para nós uma perda, pois era uma pessoa extremamente criativa, que contribuía de várias formas para a dança com o seu trabalho artístico e da sua companhia. Tive o prazer de trabalhar com ela em 1996. Com o seu jeito disciplinado e rígido ela conseguia levar um trabalho de muitas pessoas, sempre abrindo espaço para todos, fomentando muito, principalmente, o jazz. Roseli era um dos grandes nomes da história do Brasil no jazz, uma grande responsável por sua evolução e desenvolvimento. Tinha um trabalho qualificado, consagrado, transitava em todas as linguagens, em todos os eventos, era uma pessoa muito popular e respeitada pela qualidade do seu trabalho.

Pessoalmente, minha relação com ela foi muito franca e aberta. Era uma pessoa que tinha um jeitinho meigo, querido, mas ao mesmo tempo, na hora de trabalhar era super exigente e rígida. Mas eu agradeço, ela abriu portas para mim em São Paulo, me acolheu, enfim, eu acho que a dança perde um trabalho de qualidade, perde uma pessoa que abriu fronteiras para o bailarino e para a dança brasileira. Ela formou muita gente. Tem bailarinos que passaram pela mão dela e que hoje estão seguindo uma carreira profissional. Ela é responsável por tudo isso, pela dedicação que teve com a dança. Fica uma lacuna. Principalmente para o jazz, que tem passado por uma fase de renovação, ela era um dos principais pivôs desse processo, dessa transição. Acho que as pessoas que trabalham com jazz vão sentir bastante. A Roseli era uma referência nacional e estava começando a colocar o trabalho dela também em nível internacional.

Uma grande pessoa, pela qual tenho respeito e carinho. Que ela fique em paz.”

domingo, 14 de março de 2010

Festival Internacional de Teatro de Objetos - Porto Alegre 2010






















Imagem: Fito 2009


ESPETÁCULOS DO BRASIL E DO MUNDO.


ENTRADA
FRANCA.

CAIS DO PORTO 25 E 26/03, A PARTIR DAS 15H 27 E 28/03, A PARTIR DAS 16H

Companhias do Brasil, da França, Itália, Bélgica, Espanha e Argentina. Performances.

Cenografia interativa.
Feira temática. Fotografia. Shows com Uakti e Paulinho Pires.

www.fitofestival.com.br


REALIZAÇÃO: Fiergs - Sesi

terça-feira, 2 de março de 2010

A Arte de compartilhar o conhecimento de Liane Venturella




por Fernanda Stein - bailarina e pesquisadora do Grupo Meme.


Durante o mês de janeiro de 2010, enquanto a sede do Meme permaneceu em reformas, Liane Venturela foi convidada a dar uma Oficina de Máscaras pela segunda vez em nosso espaço, agora na Casa Verde (José do Patrocínio, 278). Aprofundando as técnicas aprendidas no verão de 2009, o trabalho de Liane foi, sem dúvida, um presente para o grupo. Com delicadeza e grande profissionalismo, nos guiou pelo universo das máscaras e, através de diversas técnicas, nos trouxe algo mais verdadeiro no ato da representação. Abaixo, segue uma breve entrevista com a atriz, realizada durante a oficina.





Meme: Como surgiu o interesse e a oportunidade de estudar/ pesquisar as máscaras?

Liane: Estava estudando na Desmond Jones, que é mais direcionada ao physical theatre, e naturalmente comecei a acompanhar todos os Festivais de Mímica de Londres (onde conheci o pessoal da Trestle Theatre Company).
Sempre acreditei que o teatro deveria ultrapassar a barreira da língua e tive ainda mais certeza disso quando estudei com Lorna Marshall. Começou ai minha profunda curiosidade em relação ao trabalho com máscaras. Participei de diversos workshops realizados dentro das programações dos festivais e quando apareceu a oportunidade uns anos mais tarde fiz o curso com o pessoal da Trestle.



M: Quais são, na tua opinião, os maiores desafios para o ator / bailarino no trabalho com as máscaras?

L: Acredito que as mesmas de quem trabalha só com teatro. A verdade precisa ser encontrada, percebida e depois reproduzida (com o mesmo frescor do primeiro passo). Esse é o grande desafio para quem representa, a veracidade. Atores e bailarinos, todos buscamos a mesma coisa.



M: Como foi que tu passaste a enxergar o corpo e o expressar-se através dele a partir do momento em que utilizou a máscara? Tua expressão corporal se modificou/aprimorou? Como foi isso?

L: Foi para buscar um trabalho mais focado na representação do corpo que encontrei as máscaras. E estou longe de ter chegado a algum lugar. A busca sempre te leva para mais longe do que a certeza. A cada novo trabalho tento me observar mais e estar atenta as ciladas em que nós mesmos nos colocamos.





M: Já vi trabalhos onde bonecos contracenavam com atores "normais".
É possível a contracenação de máscaras com atores de cara limpa? Ou são linguagens que não se misturam?


L: A mascara tem uma força brutal. Mas não diria que as duas coisas não se misturam, já vimos isso na Comédia Dell` Arte. Tudo é possível, depende do contexto, da linguagem e da pesquisa do trabalho.



M: Vimos no curso que as máscaras são encantadoras e que podem surgir histórias maravilhosas.
Porque são poucos os espetáculos de máscaras?


L: Acredito que poucas pessoas estudaram máscaras por aqui. Percebo que as máscaras estão mais presentes nos trabalhos como um meio e não como um fim. Os “tempos” delas também são outros e andam na contramão do que vivemos hoje ( e é isso o que mais me fascina nesse trabalho).



M: Como tu buscas conhecer o personagem a ser interpretado? Na tua carreira, existe algum que se destaque em relação aos demais? Por quê?

L: Nunca desenvolvi nenhum método para chegar a uma personagem. Essa composição depende muito da proposta do trabalho. Muitas vieram de fora para dentro, quando montamos farsa, outras ao inverso. É complicado ter uma sistemática até por que o teatro não se propõe a isso. Cada novo trabalho é diferente e só começo com o mesmo objetivo: a verdade. Por mais caricata que inicie sua personagem ela deve se tornar crível. Não destaco nenhum trabalho pois absolutamente todos tem um sentido muito especial e seria injusto.





LianeVenturella iniciou sua trajetória como atriz em 1984, formou-se na Desmond Jones School of Mime and Physical Theatre (Londres) durante os quatro anos em que morou lá também aprimorou seus estudos nos seguintes cursos: MIME SCHOOL, curso de mímica com Ronald Wilson (1991), MASK AND THE ACTOR, curso de máscaras com Lorna Marshall (1992). Em 1996, em Londres novamente, participa dos workshops de: Joff Shaffer _ Trestle Theatre _ TRABALHO DE MÁSCARAS Estuda também na École Philippe Gaulier, cursando Melodrama, Clown e Bufão. Entre os espetáculos que participou destacam-se: DECAMERON, de Giovanni Boccacio, direção de Luis Henrique Palese, UMA PROFESSORA MUITO MALUQUINHA, de Ziraldo com direção de Adriane Mottola, O BARÃO NAS ARVORES, de Ítalo Calvino com direção de Roberto Oliveira, O BEIJO NO ASFALTO, texto de Nélson Rodrigues com direção de Patrícia Fagundes, DOROTÉIA, texto de Nelson Rodrigues e direção de Kike Barbosa, AUTO DA COMPADECIDA com o grupo Depósito de Teatro PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR ATRIZ COADJUVANTE 2001, TODA A NUDEZ SERÁ CASTIGADA de Nelson Rodrigues com direção de Ramiro Silveira, “AQUELAS DUAS” orientação e dramaturgia de Nélson Diniz, CALAMIDADE, com direção de Cláudia de Bem. PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR ATRIZ 2006, DENTROFORA de Paul Auster direção de Carlos Ramiro.









segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O que é Yoga?







por Ariane Donato Villafan





Se você escolheu ler esse artigo já deve ter se perguntado, O QUE É YOGA?

Yoga é uma prática milenar hindu que tem o propósito de evolução pessoal através do auto- conhecimento.

Existem muitos tipos de yoga, alguns devocionais mais voltados para a meditação, outros filosóficos onde se busca a compreensão das escrituras (Vedas), e alguns mais práticos, onde a percepção do interior se dá inicialmente através do corpo físico, como o Hatha yoga.

A palavra Yoga em sânscrito significa união, do Eu interior com o universo. E como se dá essa união? É muito simples, a nossa energia vital vibra na mesma intensidade da energia da natureza universal, basta aprendermos a fazer esta conexão. E quando conseguimos conectar o nosso interior com o universo, percebemos que nossos pensamentos e ações influenciam no todo e vice-versa.

Passamos então a transformar nossa vida pois nos tornamos mais conscientes de nossas escolhas evitando o sofrimento, aprendemos a aceitar situações que antes nos irritavam, aprendemos com as dificuldades ao invés de nos vitimizar nos lamentar. Enfim, os ensinamentos são infinitos e a paz prevalece em qualquer situação.

É uma caminhada longa, onde a paciência e a persistência devem estar presentes diariamente. Começamos pela percepção do corpo físico e controle da mente, buscando a saúde física e mental, depois começamos a perceber o “corpo energético”, a ação dos chakras e a união com nossa natureza interior, encontramos com nosso EU. Esse EU é a manifestação do nosso interior sem a interferência da mente. A mente está sempre transitando entre o passado, trazendo informações de coisas que vivemos, e o futuro, criando expectativas em situações que não aconteceram ou que nunca acontecerão. Isso nos impede de estarmos presentes no momento real, sem falsas ilusões ou expectativas.

Quer experimentar??


Procure sentar numa posição confortável preste atenção na sua respiração, amplie o ritmo respiratório e deixe os pensamentos de lado, nada mais importa nesse momento somente a sua respiração, se os pensamentos aparecem você abstrai, mergulha na sensação de respirar...

Depois de ficar alguns minutos assim perceba como foi? Se você ficou irritado, inquieto é porque você realmente precisa PARAR um pouco e perceber de onde vem essa agitação; se conseguiu se concentrar um pouco, que bom já está dando o primeiro passo; se você conseguiu perceber uma sensação de paz e alegria, ótimo siga em frente porque é apenas o começo.

Então a prática do yoga é assim, simples e complexa ao mesmo tempo, quanto mais você se conhece mais percebe que tem a aprender e principalmente, percebe que TUDO que você precisa está dentro de você. A FELICIDADE É UM ESTADO PERMANENTE, INERENTE AO SER, NÃO DEVE DEPENDER DE COISAS EXTERNAS!!

NAMASTE (o sagrado que há em mim, cumprimenta o sagrado que há em ti).


Ariane Donato Villafan é professora de Educação Física e dá aulas de dança contemporânea e Yoga. É professora e bailarina do Meme desde 2005.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ensaio sobre o Vazio



Diego Esteves
Janeiro de 2010.

Quando surgiu o convite para escrever para o blog do MEME, fiquei pensando no tema sobre o qual discorrer. Nesse momento o tema já foi escolhido e, ironicamente, é com ele que me encontro agora: o vazio.
Escrever sobre o vazio, aqui, é uma redundância: escrevo pensando esta palavra ao mesmo tempo em que estou sobre este vazio, na medida em que as análises estão por serem feitas: a folha está em branco. E não só isso, pois fosse só o fato de ela estar em branco, bastaria alguns toques de dedos para preenchê-la. Mas não é disso que se trata. Escolhi escrever sobre algo que me punge, que me toca e atravessa, me coloca a pensar e antes, sentir. Não é algo que conheço, tenha estudado com afinco, ou tenha um concreto conhecimento de causa. Mas, diz Deleuze, filósofo francês caro para esta análise, que a boa inteligência vem sempre depois. Assim espero.
Dou início: a criação não se dá sem a existência de um vazio. Mas o que é este vazio? Pois sem esta resposta a afirmação ficaria um tanto confusa: como pode existir um vazio, quando um vazio seria um nada, e um nada não pode ocupar espaço, ou pode? Há também, nesta linha, uma afirmação que diz que nada pode surgir do nada. Então, de que vazio se trata? Neste caso, uma questão conceitual, ou poderia ser metafórica: um conceito que responde a um problema, o qual tento elaborar, ou uma metáfora que exprime uma sensação: a qual sinto enquanto artista em processo de criação.
Nada muito perto de certezas. O mais próximo disso é crer que sem este vazio não é possível criar uma obra de arte que seja intempestiva. Neste sentido, estou com o texto de Sueli Rolnyk: Se definirmos o intempestivo exatamente como a emergência de uma diferença desestabilizadora das formas vigentes, a qual nos separa do que somos e nos coloca uma exigência de criação, uma obra de arte intempestiva é aquela que se faz como resposta a uma exigência deste tipo; é só quando isso acontece, a meu ver, que se pode falar em arte.
Se assumimos então esta necessidade, nos deparamos com outro problema: da dificuldade de se colocar nesta posição inconsistente, indecisa. Poucos se permitem não saber, não ser, não estar. Tendemos a nos agarrar às formas, a um Eu com nome, sobrenome, RG e verdades. Querendo ou não, estamos num lugar, e o vazio, neste caso, é aquele momento de angústia, um sentimento ambíguo: a apreensão de não saber para onde ir e a expressão que pode ir para qualquer lugar: quando nada é, tudo pode ser. Interessante que a palavra apreensão no dicionário tem o duplo sentido de preocupação por incerteza do futuro e ação ou efeito de aprender.
Digo isso, pois penso que uma das formas de estar na vida é agir como se os problemas não existissem, num fruir descomprometido, usufruindo de uma pseudo-felicidade (ou outra forma de felicidade?). Era uma das críticas de Nietzsche, segundo Jean Granier: Adivinha-se a receita dessa felicidade: a eliminação engenhosamente programada de tudo o que, na realidade, é fonte de conflitos, de lutas, de tensão e, portanto, de superação. Trata-se de reduzir a existência humana a uma sonolência prazerosa e ininterrupta, a uma irresponsabilidade contente. Reconhece-se aí o ideal da "sociedade de consumo" moderna, versão técnica e publicitária do niilismo passivo.
Por outro lado (que em nada nega o anterior) podemos pensar que as formas se agarram ao nosso ser. Basta analisar como estamos impregnados de posturas, de gestos, de dizeres, de opiniões. Não seria de todo errado afirmar que, só somos, à medida em que temos uma forma. Num extremo: somos esta forma. Logo, não poderíamos ser um nada. Podemos, contudo, ser o processo, não o fim. Estarmos mais atentos aos acontecimentos e mais, provocar para que algo nos ocorra e ocorra com o mundo: se mantém então a forma, mas pequenas sutilezas fazem com que ela mude, pouco a pouco. Não que essas mudanças não sejam inerentes a todos, porém, ser ativo, atuante, pensante, fazedor, criador, questionador, é diferente. Interessante como muitas dessas palavras terminam com dor...
Vivemos numa estrutura social, há toda uma maquinaria da qual fazemos parte à medida em que temos um lugar, uma função. Mesmo assim, por mais que a tendência seja a da reprodução, sempre a algo que escapa, sempre existe uma linha de fuga e é sobre estas que precisa recair nossa atenção. Parece-me que poucas coisas podem ser tão difíceis quanto isso. Assumir esta condição de procura, de sensibilidade apurada, de pensar constante, é causar um eterno problema enquanto durar a vida. Aliás, pensar realmente, e não somente repetir, pressupõe, ao meu ver, uma boa dose de sensibilidade: uma é inerente a outra. Mas arrisco dizer que só assim estaremos com a vida e não na vida. Não sem dor: negar esta, como a derrota e tudo que rotulamos como o mal, é nos tirar a chance da felicidade, da superação, do ir além. Como saber a felicidade sem saber a tristeza?
Encontrar este estado de inconstância, de não-saber, que aqui estou chamando de vazio, não se dá sem um esforço. E esse esforço não é eficaz sem um método. E é aí que está, ao meu ver, um dos méritos dos laboratórios do MEME: promover, por diversos meios, este vazio. Penso que é na desconstrução do ser, que é buscando uma indefinição, um corpo informe, que surge a criação. Desconstruir para reconstruir. Do contrário, ficaríamos com o mesmo e com as formas dadas. Contudo, é necessário jogar com as formas, não negá-las.
Um adendo: não é possível ser esse vazio. Penso que esta condição sensível não é um lugar para ser alcançado, é um caminho. E, talvez, na maior parte do tempo, viveremos os automatismos e distrações cotidianas, já que a tendência é a da reprodução. No entanto, em laboratório, em criação, esta condição é indispensável e, mesmo assim, nem sempre alcançada. Mas exercitá-la, em arte, pode significar a possibilidade de trazê-la para a vida como um todo e, fazendo assim, da vida uma obra de arte.
Encaminho o texto para o fim com o pouco fôlego que me resta. Penso ser provável que ele não se faça entender o suficiente. Talvez bem menos do que isso. Seria um disparate que fosse o contrário. O motivo, já dito de ante-mão, é que não sei sobre o que escrevo: tenho alguns apontamentos, mas escrevo com essa sensação de vazio (que neste caso é muito pertinente). Só me potencializa escrever neste limiar. O mesmo vazio que experimento dia a dia, enquanto artista: função que, reafirmo, não pode se dar, ao meu ver, sem se permitir e se provocar esses vazios. Sem estar neste limiar. Ao menos quando se pensa numa obra de arte intempestiva. Ou quando se pensa, como Roland Barthes, ao escrever sobre Brecht, uma arte crítica:

Tudo o que lemos e ouvimos recobre-nos como uma toalha, rodeia-nos e envolve-nos como um meio: é a logosfera. Essa logosfera nos é dada por nossa época, nossa classe, nosso ofício: é um “dado” de nosso sujeito. (...) A arte crítica é aquela que abre uma crise: que rasga, que faz rachaduras na cobertura, fissura a crosta das linguagens, desliga e dilui o ligamento da logosfera; é uma arte épica: que torna descontínuos os tecidos das palavras, afasta a representação sem anulá-la.


1 http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/ninguem.pdf
2 Nietzsche. Jean Granier. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.
3 Escritos sobre teatro. Roland Barthes. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Diego Esteves é coordenador do Núcleo de Estudos e Experimentações com Circo e Transversalidades - NECITRA, que funciona junto ao Centro Meme. Recentemente, fez sua primeira participação junto ao Grupo MEME na performance Acessos, no Festival Internacional Mesa Verde.