domingo, 6 de dezembro de 2009

Teresinhas e entrevista em Rio Grande



















por Fernanda Stein - bailarina e pesquisadora do Grupo Meme (jornalista nas horas vagas!)

No dia 13 de novembro de 2009, o Meme esteve em Rio Grande (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Grande), cidade portuária, localizada no extremo sul do estado. Fomos até lá a convite da Furg e do Geribanda participar do Seminário de Dança Contemporânea Circuitos Diálogos.

Terra natal do diretor e coreógrafo do Meme, Paulo Guimarães (Laco), essa viagem teve um sabor especial, pois o espetáculo apresentado foi “Teresinhas”, obra inspirada em uma Teresinha real e rio-grandina, a mãe do Laco. Com isso em mente, não preciso dizer que além da platéia lotada no auditório da Furg, tínhamos a família Guimarães em peso nas primeiras filas, assistindo cheios de emoção a dança da vida de Teresinha, a sua grande matriarca!

Durante os dois dias que passamos lá, tive a oportunidade de conversar com Daniela Castro, querida amiga desde os tempos iniciais do Meme, em 2004.

Formada em Educação Física e Mestre em Ciências do Movimento Humano, Daniela trocou o agito da capital e voltou para casa, voltou a Rio Grande e é lá que tem desenvolvido o seu próprio trabalho como professora da universidade, além de dirigir e coreografar um grupo de mulheres maduras, o “Baila Cassino – Grupo de Dança Livre”.

Esta entrevista é a tentativa de estabelecer um diálogo com aqueles que estão fora do eixo da capital, fazendo e vivenciando a dança, para que possamos conhecer um pouco melhor a realidade dos grupos no interior do nosso estado.

Entrevista com Daniela Castro – Rio Grande, novembro 2009.

Fala um pouco sobre esse evento que está acontecendo aqui na FURG.

Daniela – Bom, na verdade são dois grandes eventos, a MPU – Mostra de Produção Universitária da FURG e o Geribanda, que é o movimento de arte e cultura na Furg. Dentro do Geribanda, existem alguns focos e neste ano o foco foi a música, o teatro e a dança. Falando mais especificamente da dança, tivemos o seminário de dança contemporânea: Circuito diálogos, que foi a parte da dança dentro do Geribanda. Esse Seminário teve como proposta fazer algumas atividades práticas e oficinas, como a do Daniel Amaro de dança-afro e a do Laco (Paulo Guimarães, coordenador do Meme) que será amanhã de manhã. À tarde, então, foi a vez da Mostra de Dança cuja intenção maior era provocar um pouco a discussão e o diálogo em torno da dança, o que vem sendo feito aqui na cidade. A gente colocou um tema, que foi “Processos de Criação” e os trabalhos poderiam estar ainda em construção, ou seja, as pessoas poderiam trazê-los como estivessem e haveria comentadores para se criar esse diálogo, né? Então dentro disso entrou o Laco, o Alex Almeida que estuda dança-teatro na UFPEL e eu, que venho da Furg. A gente sabia que viriam várias coisas, até porque conhecemos a dança de Rio Grande. Apesar de ser um seminário de dança contemporânea, teve trabalhos de dança clássica, dança de salão, de rua. Mas a gente deixou assim porque, em primeiro lugar, talvez nem acontecesse se a gente fechasse muito e segundo porque a ideia era provocar o diálogo da dança em geral. Acho que foi bem rico, o que a gente já viu... Por que o que acontece? Tem muitas pessoas que são mais cruas, existem escolas menores, que não pensam muito na sua criação, copiam muito, trazem os passos que aprendem nos cursos e depois montam a sua coreografia, ou então escutam aquela musiquinha legal da novela e traz pro palco, então era isso que a gente queria um pouco discutir, né? Talvez ainda não tenha surgido o diálogo que eu imagino, mas acho que o Laco colocou muitas questões para eles refletirem, o que já é um primeiro passo, pensar sobre a sua criação, e depois pontuamos algumas coisas que a gente viu, coisas básicas mas que são decorrentes desse não pensar... Mas o mais importante que aconteceu, mais no finalzinho, quando o pessoal começou a falar mais, foi o medo de se expor que eles foram perdendo, foram falando dos seus trabalhos, e eles mesmos disseram “poxa, que legal poder estar falando sobre isso e poder estar trocando com outros grupos”.

Como são os grupos de dança aqui em Rio Grande?

Os grupos são muito fechados, um briga com o outro, é uma coisa muito de cidade pequena. Existem escolas boas, mas se a fulana vem o outro não vem.. Então foi isso que eu quando pensei nesse seminário, eu quis provocar. Vamos trazer para a Universidade que é um espaço diferenciado e neutro, assim podemos chamar todos para participar, pois não é uma academia sozinha que está promovendo, e vamos ver, quem estiver mais aberto vai aparecer. A intenção é que esse Seminário se repita outras vezes, para que a gente possa, aos pouquinhos, mexer com a dança de Rio Grande.

Tu trabalhas com um grupo de dança, que tu diriges e coreografa. Como é?

O meu grupo eu chamo de “Baila Cassino – Grupo de Dança Livre”, as bailarinas têm mais de 50 anos, e eu coreografo também. Mas eu ainda não cheguei no ponto que eu gostaria com elas, porque elas são muito tradicionais, não aceitam qualquer coisa, acho que já cresceram bastante, já faz 3 anos que trabalhamos juntas. Eu comecei esse trabalho porque eu não tava a fim de me incomodar, então pensei, vou trabalhar com a terceira idade, vou dar umas aulas, sou professora de Educação Física, vou juntar a dança com a ginástica, e vou por aí.... Mas eu me surpreendi, pois começamos a trabalhar e veio delas a proposta de uma primeira apresentação, que era um chá beneficiente só para senhoras, quem sabe a gente faz uma dancinha, uma coreografiazinha? E eu disse, então tá! E a partir dali começamos a desenvolver alguma coisa, eu coreografo, eu não consegui ainda que elas criassem como eu gostaria, que trabalhassem com improviso, porque elas ainda são muito presas ao meu modelo, ainda falam muito “ah, eu não sei dançar, sou gordinha, sou velha”.. então elas precisam daquele modelo na frente para elas copiarem. Mas a gente vai indo assim. Eu tenho uma pessoa que me ajuda, a Ângela, que também dá umas aulas comigo. E a gente, então foi aumentando o numero de apresentações, conseguimos fazer uma apresentação no palco, foi legal, falava da trajetória de vida delas, se chamava “Ritmos da Vida”, uma delas é escritora - a gente tem várias potencialidades aqui - ela escreveu o roteiro, que a gente gravou junto, então tinha a fala dela e depois a dança. O roteiro foi feito em cima das historias delas, e foi representado com os ritmos e as coreografias. Foi super legal, elas adoraram, elas amam essa apresentação, querem repetir. Eu já tinha deixado de lado para fazer outras mas elas querem retomar.

Quantas pessoas têm no grupo?

Tem 15, em média.. Este ano organizamos um evento para a maturidade, vai ter uma mostra com outros grupos. Eu comecei a incentivar que elas assistissem outros grupos, algumas delas vieram aqui hoje para as oficinas, e tudo isso fez com que elas começassem a abrir mais os olhos para a dança, viver mais o mundo da dança, se sentir bailarinas, e isso eu acho super legal, até me emociono.... porque eu vejo uma senhora de 70 anos dizendo “ah eu sou bailarina, sou bailarina”. Recentemente fomos a Bagé. E elas sentiram que eram velhas, que não tem muita gente velha dançando, se sentiram um pouco um peixe fora d’água. Aí eu disse, vamos fazer um evento só para a idade de vocês, vamos juntar outros grupos que conhecemos e semana que vem está acontecendo, dias 21 e 22 de novembro. Já temos 6 grupos que vão se apresentar.

Todos aqui de Rio Grande?

Tem um de Pelotas e o resto é de Rio Grande. E fora os grupos, tem muita gente se inscrevendo para as oficinas, palestras, almoço. Estamos conseguindo agregar além das bailarinas, pessoas que querem ver um pouco de dança. Vai ter oficina de alongamento, de dança de salão, oficinas que permitem quem não tem experiência na dança fazer.

Um ultima pergunta: como tu vês o diálogo e a troca de informação entre Porto Alegre e Rio Grande? Como funciona esse intercambio?

Eu acho que ele existe, mas é pouco... a gente mora num lugar que é longe, chega pouca coisa aqui. O que a gente mais sabe, geralmente, é pela Zero Hora, o que chega pelo jornal. Na televisão praticamente não passa nada de dança, principalmente de grupos locais. Eu assisto muito o Canal SESC, mas é mais sobre grupos de RJ e SP. Claro, como eu sou ligada em dança, eu tenho meu mailing, recebo muita coisa, fico sabendo o que está acontecendo em Porto Alegre, agora mesmo recebi email sobre o Mesa Verde, vi que o Meme está envolvido, eu fico sabendo e vou falando.

Mas é um fluxo complicado então?

Exatamente, é complicado. Eu tento estimular ao máximo as minhas alunas a irem a Festivais, apresentações. Trazer para cá é outra coisa difícil. A cidade não é tão pequena, mas não vive a cultura, não é uma cidade cultural, é difícil fazer as pessoas participarem, existe uma resistência grande. Por exemplo, há tempos o Luiz Henrique e eu, tentávamos trazer o Meme, e era difícil. Quando surgiu essa oportunidade aqui na Universidade eu disse: vamos trazer. Por que não dá para ficar dependendo dos teatros, dos patrocinadores, a coisa não anda.

Bem, muito obrigada, parabéns pelo trabalho!


Um comentário:

Corte Cultural disse...

Daniela Castro é uma guerreira e sua luta em prol da dança já proporcionou muitos frutos para o interior gaúcho. Parabéns Dani!